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domingo, 17 de outubro de 2010

Algumas Considerações Sobre o Segundo Turno


Fui provocado a escrever esta postagem depois da leitura do texto "Carta Aos Meus Amigos", do pastor Ageu Magalhães, autor do blog Resistência Protestante.
Nunca vi uma eleição que mexesse tanto com os crentes. Na internet e na televisão alguns pastores trocam farpas na defesa de seus candidatos. Na igreja também não é diferente.
O que me chama a atenção é que, de uma hora para outra, as questões morais passaram a ocupar o centro do debate político.
Quero dizer, inicialmente, que não parece ser muito consistente a discussão sobre qual dos candidatos à Presidência apresenta mais afinidade com a opinião que temos sobre as questões morais que têm sido mais destacadas no debate.
É que os dois são simplesmente iguaizinhos neste ponto. O que ambos tem dito sobre aborto, direitos homossexuais, sexo livre, etc, são apenas discurso para acariciar o eleitorado evangélico e católico. O que eles querem é nosso voto, só isso. Eles não têm compromisso com o evangelho.
O que tenho visto, porém, inclusive no texto do pastor Ageu, é que parece que apenas a candidata do PT tem opiniões contrárias à Escritura, e isso não é verdade.
Por exemplo, apesar de hoje dizer que é contra a legalização do aborto, quando Ministro da Saúde, o candidato do PSDB assinou diversas medidas regulando a realização de abortos. Também fez apologia ao sexo livre, ao popularizar o "Braúlio". Por fim, seu vice integra a frente GLBT do Congresso.
Assim, se formos seguir à risca este critério, o nosso voto deverá ser necessariamente branco. Por essa razão, optei por utilizar outra linha de raciocínio: ao invés de reduzir a análise ao campo moral, comparo as propostas apresentadas pelos aspirantes à Presidência. E, partindo deste último critério, a candidata do PT parece ser a menos pior.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Colapso do Movimento Evangélico (texto de Ricardo Gondim)

Dois pastores paulistas se fantasiam de Fred e Barney. Isso mesmo, fantasiados de Flintstone, entre gracejos ridículos, acreditam que estão sendo "usados por Deus para salvar almas". Na rádio, um apóstolo ordena que tragam todos os defuntos daquele dia, pois ele sente que Deus o "ungiu para ressuscitar mortos".

Os jornais denunciam dois políticos de Minas Gerais, "eleitos por suas denominações para representar os interesses dos crentes", como suspeitos de assassinato. O rosário se alonga: oração para abençoar dinheiro de corrupção; prisão nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro, flagrante de missionários por tráfico de armas; conivência de pastores cariocas com chefões da cocaína .

Fica claro para qualquer leigo: O movimento Evangélico brasileiro se esboroa. O processo de falência, agudo, causa vexame. Alguns já nem identificam os evangélicos como protestantes. As pilastras que alicerçaram o protestantismo vêm sendo sistematicamente abaladas pelo segmento conhecido como neopentecostal. Como um trator de esteiras, o neopentecostalismo cresce passa por cima da história, descarta tradições e liturgias e se reinventa dentro das lógicas do mercado. É um novo fenômeno religioso.

É possível, sim, separá-lo como uma nova tendência. Sobram razões para afirmar-se que o neopentecostalismo deixou de ser protestante ou até mesmo evangélico.É uma nova religião. Uma religião simplória na resposta aos problemas nacionais, supersticiosa na prática espiritual, obscurantista na concepção de mundo, imediatista nas promessas irreais e guetoizada em seu diálogo cultural.

Mas a influência do neopentecostalismo já transbordou para o "mainstream" prostestante. O neopentecostalismo fermentou as igrejas consideradas históricas. Elas também se vêem obrigadas a explicar quase dominicalmente se aderiram ou não aos conceito mágicos das preces. Recentemente, uma igreja batista tradicional promoveu uma "Maratona de Oração pela Salvação de Filhos Desviados".

Pentecostais clássicos, como a Assembléia de Deus, estão tão saturados pela teologia neopentecostal que pastores, inadvertidamente, repetem jargões e prometem que a vida de um verdadeiro crente fica protegida dentro de engrenagens de causa-e-efeito. Os "ungidos" afirmam que sabem fazer "fluir as bênçãos de Deus". É comum ouvir de pregadores pentecostais que vão ensinar a "oração que move o braço de Deus”.

O Movimento Evangélico implode. Sua implosão é visceral. Distanciou-se de dois alicerces cristãos básicos, graça e fé. Ao afastar-se destes dois alicerces fundamentais do cristianismo, permitiu que se abrisse essa fenda histórica com a tradição apostólica.

1. A teologia da Graça

Desde a Reforma, protestantes e católicos passaram a trabalhar a Graça como pedra de arranque de um novo cristianismo. O texto bíblico, “o justo viverá da fé”, acendeu o rastilho de pólvora que alterou a cosmovisão herdada da Idade Média. A Graça impulsionou o cristianismo para tempos mais leves. Foi a Graça que acabou com a lógica retributiva que mostrava Deus como um bedel a exigir penitência. Devido a Graça entendeu-se que a sua ira não precisa ser contida. O cristianismo medieval fora infectado por um paganismo pessimista e, por isso, sobravam espertalhões vendendo relíquias e objetos milagrosos que, segundo a pregação, “ garantiam salvação e abriam as janelas da bênção celestial”.

Lutero, um monge agostiniano, portanto católico, percebeu que o amor de Deus não podia ser provocado por rito, prece, pagamento ou penitência. Graça, para Lutero, significava a iniciativa de Deus, constante, unilateral e gratuita, de permanecer simpático com a humanidade. Lutero intuiu que Deus não permanecia de braços cruzados, cenho franzido, à espera de que homens e mulheres o motivassem a amar. O monge escancarou: as indulgências eram um embuste. Assim, Lutero solapava o poder da igreja que se autoproclamava gerente dos favores divinos.

Passados tantos séculos, o movimento neopentecostal, responsável pelas maiores fatias de crescimento entre evangélicos, abandonou a pregação da Graça. (É preciso ressaltar, de passagem, que o conceito da Graça pode até constar em compêndios teológicos, mas não significa quase nada no dia-a-dia dos sujeitos religiosos).

Os neopentecostais retrocederam ao catolicismo medieval. É pre-moderna a religiosidade que estimula valer-se de amuletos “como ponto de contato para a fé”; fazerem-se votos financeiros para “abrir as portras do céu”; “pagar o preço” para alcançar as promessas de Deus. Desse modo, a magia espiritual da Idade Média se disfarçou de piedade. A prática da maioria dos crentes hoje se concentra em aprender a controlar o mundo sobrenatural. Qual o objetivo? Alcançar prosperidade ou resolver problemas existenciais.

2. A compreensão da Fé

“A Piedade Pervertida” (Grapho Editores) de Ricardo Quadros Gouvêa é um trabalho primoroso que explica a influência do fundamentalismo entre evangélicos.

“O louvorzão, assim como as vigílias e as reuniões de oração, e até mesmo o mais simples culto de domingo, muitas vezes não passam de um tipo de superstição que beira a feitiçaria, uma vez que ele é realizado com o intuito de ‘forçar’ uma ação benévola da parte de Deus, como se o culto e o louvor fossem um ‘sacrifício’, como os antigos sacrifícios pagãos. Neste caso, não temos mais liturgias, mas sim teurgias, nas quais procura-se manipular o poder de Deus” (p.28).

Ora, enquanto fé permanecer como uma “alavanca que move os céus”, as liturgias continuarão centradas na capacidade de tornar a oração mais eficaz. Antes dos neopentecostais, o Movimento Evangélico já se distanciara dos Místicos históricos que praticavam a oração com um exercício de contemplação e não como ferramenta de como tornar Deus mais útil.

Fé não é uma força que se projeta na direção do Eterno. Fé não desata os nós que impedem bênçãos. Fé é coragem de enfrentar a vida sem qualquer favor especial. Fé é confiança de que os valores de Cristo são suficientes no enfrentamento das contingências existenciais. Fé aposta no seguimento de Cristo; seguir a Cristo é um projeto de vida fascinante.

O neopentecostalismo ganhou visibilidade midiática, alastrou-se nas camadas populares e se tornou um movimento de massa. Por mais que os evangélicos conservadores não admitam, o neopentecostalismo passou a ser matriz de uma nova maneira de conceber as relações com o Divino.

A alternativa para o rolo compressor do neopentecostalismo só acontecerá quando houver coragem de romper com dogmatismos e com os anseios de resolver os problemas da vida pela magia.

O caminho parece longo, mas uma tênue luz já desponta no horizonte, e isso é animador.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

"Crise econômica aumenta o calvinismo holandês"

O texto a seguir é uma tradução de uma reportagem que eu li no site da BBC.

Quinhentos anos depois do nascimento do teólogo protestante francês João Calvino, seus ensinamentos parecem ser mais atuais do que nunca.

O trabalho duro e a frugalidade, os valores defendidos pelo calvinismo, estão de volta à moda na forma como as pessoas reavaliam suas vidas por causa da crise econômica.
Em nenhum lugar isso é mais do que na Holanda, que é frequentemente descrito como a nação mais calvinista do mundo. Calvino nunca pôs os pés lá, mas sua influência é difícil de se perder.
A igreja Thomas, no distrito financeiro de Amesterdã, parece muito convidativa, com paredes de concreto stark e pisos de tijolos nus. Você poderia chamá-la de arquitetura calvinista -, mas a simplicidade tem um efeito calmante.
Com todo o excesso, eu pensei que a sobriedade, a abordagem-a-terra para as coisas, é certo, afinal
Ingrid Toth, tradutor
Ruben van Zwieten, 25, está treinando para ser um reverendo aqui. Raramente, ele também dirige uma empresa de recrutamento.
Então ele sente que está numa posição privilegiada para dar às pessoas uma oportunidade de negócio para descarregar suas cargas.
"Eu conheço um monte de pessoas que trabalham na área de negócios, eu sei as suas dúvidas", disse Ruben. "Eles estão trabalhando cada vez mais duro e parece cada vez mais sentido."
Aproximar as pessoas
Com o seu blazer azul-marinho, este jovem alto mais parece um modelo do que um homem da igreja.
Talvez seja por isso Ruben tem encontrado maneiras de fazer o calvinismo "cool". No outono, ele pretende reunir os banqueiros e os jovens muçulmanos locais para uma partida de futebol.
No Dia dos Namorados, ele pediu cerca de 200 jovens profissionais para "datar" os idosos da freguesia.
"A crise econômica é também uma crise moral criada pela ganância, a preocupação com dinheiro e atos egoístas"
Jan Peter Balkenende,
primeiro-ministro holandês
Assim, por exemplo, um banqueiro de 35 anos de ABN-AMRO foi para um parque com uma mulher de 88 anos de idade.
Em seguida, um jovem disse a Ruben: "Sinto-me mais como um ser humano, depois deste dia."
Entre aqueles que começaram a chegar aos serviços de almoço de Ruben desta vez é Ingrid Toth, um tradutor.
Quando perguntado se o Calvinismo é relevante hoje em dia, ele ri.
"É muito estranho ouvir-me dizer isto, mas sim. Com todo o excesso, eu pensei que a sobriedade, a abordagem-a-terra para as coisas, é certo, afinal."
Calvin memorabilia
Aniversário de nascimento de Calvino
Da igreja Thomas, é apenas uma curta caminhada para a construção da fachada de vidro do World Trade Centre Amsterdam.
Mas poucos aqui passam sua hora do almoço orando ou confessando os seus pecados financeiros.
"Eles poderiam considerar voltar para o Calvinismo, devido à crise", disse Hendrick SIPPE, que trabalha para um banco americano.
"Mas logo eles vão voltar para os velhos padrões e depois de alguns anos, o céu é o limite."
Mas a coalizão de governo social-cristão começou a tocar as alterações.
Chamada para a moralidade
Segundo as regras do gabinete, pessoas que trabalham no setor público não devem ganhar mais do que o primeiro-ministro Jan-Peter Balkenende - que é R $ 240.000 (£ 147.000) por ano.
Em vários discursos recentes, o Sr. Balkenende - um calvinista devoto - pediu mais moralidade na economia.
"A crise econômica é também uma crise moral criada pela ganância, preocupação com dinheiro e os atos egoístas", afirmou Balkenende mais cedo este ano.
"Calvino sabia que a sociedade precisava fortes âncoras morais, esta é uma lição que precisamos levar a sério."
Apenas 19% dos holandeses descrevem-se como protestantes, ao contrário de 28% católicos, 5% muçulmanos e 40% que dizem que não são religiosos de todo.
Mas depois de décadas de tolerância, políticas mais rígidas estão surgindo sobre as drogas leves e a prostituição.
Joel Voordewind
Joel Voordewind do partido União Cristã diz que há um renascimento moral
Uma pintura de graffiti com as palavras "sexo, drogas e debate" rabiscado em cores vivas, é a decoração marcante no escritório de Joel Voordewind.
O vice-líder parlamentar da União Cristã, o parceiro de coalizão Júnior, fala de um renascimento moral.
"Eu acho que um sentido amplo moral cristã está florescendo novamente na Holanda", disse Voordewind.
"Estou muito orgulhoso de que, porque eu vejo que nós temos faltado agenda moral nos últimos 20 anos.
"Então, eu estou muito esperançoso para o futuro da crise - embora seja muito difícil para um monte de pessoas que estão perdendo seus empregos - mas com a crise o governo torna a nossa economia mais justa e moral para os próximos 10 anos. "
O 500 º aniversário de nascimento de Calvino gerou enorme interesse e um boom de comercialização que parece ir contra a moderação defendida pelo teólogo.
Barack Obama
Toda semana, milhares de pessoas visitam o Calvino sua exposição em uma igreja na cidade holandesa de Dordrecht central, onde o chocolate Calvin e até mesmo o vinho é também posto à venda.
Em um "Calvin especial revista" Brilhante, um contribuinte desconcertante descreve o reformador francês como "Barack Obama do século 16".
Lodewijk Dros
Lodewijk Dros desenvolveu um teste para ver quanto você é um calvinista
Depois, há o "fator C", um teste online desenvolvido pela Lodewijk Dros para o Trouw religioso diário, que pede para você concordar ou discordar com declarações como "Eu sempre mantenho minhas promessas", "eu deveria trabalhar mais, realmente", e "Eu adoro comida boa e luxuosa, que pode custar um pouco".
Depois que 70 mil voluntários participaram, Sr Dros concluiu que 56% dos holandeses poderiam ser classificadas como calvinistas. "Eu acho que Calvino está em nossas veias", o Sr. Dros me disse.
Não sendo nem holandês nem um calvinista, eu decidi fazer o teste também. Os resultados foram surpreendentes. Acontece que eu tenho um fator-C de 58.
Como o teste conclui: "Trabalhar duro é bom para você, mas sua atitude em relação aos outros não é necessariamente radical em preto-e-branco.
"Você vive sua vida em uma maneira de clima temperado e moderado, mas não a mente de uma extravagância de vez em quando."
Suponho que neste momento de crise, todos nós estamos nos tornando pelo menos um pouco holandeses.